Durante bilhões de anos, a vida na Terra foi dominada por organismos formados por células relativamente simples. Então, em algum momento da história do planeta, surgiu uma transformação extraordinária: apareceram as células eucarióticas, muito mais complexas, capazes de formar organismos multicelulares como animais, plantas e fungos.
O que aconteceu exatamente continua sendo uma das grandes perguntas da biologia.
Agora, cientistas estão conseguindo observar de perto alguns microrganismos extremamente difíceis de cultivar e que podem ajudar a preencher partes desse enorme quebra-cabeça.
Eles pertencem a um grupo chamado arqueias Asgard.
Apesar de serem organismos unicelulares microscópicos, algumas dessas células apresentam características que lembram estruturas encontradas em células eucarióticas. Algumas possuem longas extensões semelhantes a tentáculos; outras apresentam estruturas relacionadas ao citoesqueleto e há evidências de interações físicas extremamente próximas com outras células.
Pesquisadores vêm tentando cultivar esses organismos em laboratório há anos. E cada nova cultura parece revelar uma surpresa.
O que são as arqueias Asgard?
As arqueias Asgard são um grupo de microrganismos descoberto inicialmente por meio de material genético encontrado em sedimentos marinhos.
O nome faz referência à mitologia nórdica, em uma alusão ao reino dos deuses.
O interesse científico pelo grupo cresceu porque análises genéticas indicaram uma relação particularmente próxima entre as arqueias Asgard e os eucariotos — o grande grupo ao qual pertencem animais, plantas, fungos e muitos outros organismos.
Pesquisadores passaram a encontrar nos genomas dessas arqueias genes que codificam proteínas consideradas importantes para características associadas às células eucarióticas.
Mas havia um problema.
Encontrar genes em uma sequência de DNA é diferente de observar o que eles fazem em uma célula viva.
Para responder a essa pergunta, era necessário cultivar os organismos.
E isso é extremamente difícil.
O problema de cultivar um microrganismo quase invisível
As arqueias Asgard geralmente aparecem em concentrações muito baixas no ambiente.
Centenas de espécies já foram identificadas por meio de análises genéticas de amostras ambientais, mas isso não significa que os cientistas consigam simplesmente colocá-las em um recipiente e observá-las crescendo.
Algumas são extremamente lentas.
Outras dependem de outros microrganismos.
E determinadas culturas podem levar anos para chegar a uma quantidade suficiente para serem estudadas detalhadamente.
As primeiras culturas de Asgard foram relatadas em 2020 e 2022. Desde o início de 2025, outras culturas foram anunciadas, ampliando rapidamente o que os cientistas conseguem observar diretamente.
Essa mudança é importante porque permite passar de uma ciência baseada principalmente em sequências de DNA para uma ciência baseada também na observação do comportamento e da estrutura dessas células.
E foi aí que começaram algumas das descobertas mais intrigantes.
As células têm estruturas que parecem tentáculos
Uma das características mais impressionantes das arqueias Asgard são suas extensões.
Algumas células apresentam longas estruturas que saem do corpo celular e podem se ramificar.
À primeira vista, elas parecem pequenos tentáculos microscópicos.
Essas estruturas não são apenas uma curiosidade visual.
Os cientistas estão tentando descobrir exatamente qual é sua função.
Uma hipótese é que elas participem da movimentação das células.
Outra possibilidade é que ajudem as arqueias a estabelecer contato com outros microrganismos.
E isso pode ser particularmente importante para compreender a origem das células eucarióticas.
Em algumas culturas, pesquisadores observaram extensões das arqueias entrando em contato com parceiros microbianos.
A possibilidade de essas estruturas terem ajudado organismos ancestrais a estabelecer relações íntimas com outras células é uma das hipóteses que estão sendo investigadas.
Uma arqueia que consegue se movimentar
Em uma das culturas estudadas, os pesquisadores conseguiram observar células de Lokiarchaeum ossiferum e outra arqueia chamada Margulisarchaeum peptidophilum movimentando-se.
Os organismos parecem usar alterações no citoesqueleto localizado nas extensões celulares para se deslocar sobre uma superfície.
Quando proteínas semelhantes à actina foram inibidas, o movimento foi interrompido.
Isso é interessante porque a actina é uma proteína fundamental para o funcionamento do citoesqueleto das células eucarióticas.
Ou seja: uma célula que pertence a um grupo de arqueias extremamente antigo possui componentes que ajudam a construir estruturas dinâmicas relacionadas à movimentação.
Isso não significa que uma arqueia Asgard seja uma célula humana primitiva.
A evolução não funciona como uma escada em que organismos modernos representam etapas anteriores diretas.
O que os pesquisadores procuram são pistas sobre características que podem ter existido em ancestrais muito antigos.
O detalhe que deixou os cientistas especialmente intrigados
Em 2025, um estudo publicado na revista Cell encontrou outro elemento surpreendente em Lokiarchaeum ossiferum: proteínas semelhantes à tubulina capazes de formar microtúbulos.
Microtúbulos são componentes fundamentais do citoesqueleto das células eucarióticas.
No estudo, pesquisadores demonstraram que tubulinas das arqueias Asgard poderiam formar estruturas de microtúbulos em laboratório. Também foram identificadas estruturas relacionadas dentro de uma parte das células analisadas.
Isso é relevante porque o citoesqueleto permite que células complexas mantenham sua forma, movimentem componentes internos e organizem processos celulares.
A descoberta reforça a possibilidade de que alguns componentes do citoesqueleto eucariótico tenham raízes evolutivas anteriores ao surgimento das células eucarióticas.
Mas de onde vieram as células complexas?
Para entender por que tudo isso é importante, é preciso voltar bilhões de anos.
As células dos animais, plantas e fungos possuem uma característica que as diferencia profundamente de bactérias e arqueias: são eucarióticas.
Elas possuem estruturas internas especializadas.
O núcleo, por exemplo, mantém o material genético separado de grande parte do restante da célula.
E existe outra estrutura fundamental: a mitocôndria.
As mitocôndrias são responsáveis por grande parte da produção de energia utilizada pelas células e possuem características que indicam uma origem evolutiva extremamente peculiar.
A explicação mais aceita envolve um antigo processo de endossimbiose.
Em termos simplificados, um organismo ancestral teria estabelecido uma associação íntima com uma bactéria. Em vez de essa bactéria ser destruída, a relação tornou-se permanente.
Com o passar de gerações, a bactéria teria evoluído para se tornar a mitocôndria.
Esse acontecimento teria sido decisivo para a evolução das células eucarióticas.
Mas ainda existem enormes perguntas.
Como o contato começou?
Como os organismos conseguiram estabelecer uma relação tão íntima?
Como uma célula conseguiu incorporar ou envolver outra?
E quais características o ancestral arqueano já possuía antes desse processo?
É justamente nesse ponto que as arqueias Asgard se tornam tão interessantes.
Uma hipótese: o ancestral já era mais complexo do que se imaginava
Durante muito tempo, poderia parecer intuitivo imaginar que a célula ancestral que deu origem aos eucariotos fosse extremamente simples.
As descobertas sobre as arqueias Asgard ajudam a questionar essa imagem.
Se seus ancestrais já possuíam proteínas relacionadas ao citoesqueleto, mecanismos de remodelação de membranas e estruturas celulares complexas, talvez a célula que participou da origem dos eucariotos já tivesse algumas ferramentas necessárias para uma transformação maior.
Isso não significa que os cientistas tenham reconstruído exatamente o processo.
A origem dos eucariotos continua sendo uma questão aberta.
Mas as arqueias Asgard fornecem organismos vivos que podem ser estudados para testar diferentes hipóteses.
Uma descoberta em Shark Bay chamou atenção
Em 2026, pesquisadores descreveram uma nova arqueia Asgard chamada Nerearchaeum marumarumayae, encontrada associada a comunidades microbianas em Shark Bay, na Austrália.
O organismo foi cultivado em uma cultura altamente enriquecida, com cerca de 89% de células da arqueia.
Os pesquisadores também encontraram uma bactéria associada à cultura.
O mais interessante apareceu quando os cientistas observaram as células com técnicas avançadas de microscopia.
A arqueia apresentava cadeias de vesículas na superfície e estruturas internas semelhantes a tubos e gaiolas.
Além disso, arqueias e bactérias foram observadas interagindo por estruturas tubulares entre as células.
Os pesquisadores interpretam essas características como possíveis pistas sobre formas antigas de associação entre microrganismos.
Isso não prova que esse organismo seja um ancestral direto das células eucarióticas.
Ele é um organismo moderno.
O valor da descoberta está em permitir observar, no presente, um tipo de interação que pode ajudar a testar modelos sobre processos que ocorreram em um passado extremamente remoto.
Por que as bactérias também importam nessa história?
A origem das células eucarióticas provavelmente não pode ser explicada olhando apenas para um organismo.
Um estudo publicado na Nature em junho de 2026 analisou as origens dos genes encontrados no ancestral comum de todos os eucariotos.
Os resultados indicaram contribuições genéticas provenientes de diferentes grupos bacterianos e sugeriram que transferências horizontais de genes podem ter ocorrido antes e durante o processo que levou ao surgimento dos eucariotos.
Isso acrescenta uma camada importante à história.
Em vez de imaginar o surgimento da célula complexa como resultado de um único acontecimento isolado, a evolução pode ter envolvido uma sequência de associações entre diferentes organismos.
As arqueias poderiam fornecer uma parte da história.
As bactérias, outra.
E até vírus podem ter desempenhado algum papel evolutivo, segundo algumas hipóteses analisadas na literatura científica.
A grande pergunta continua sem resposta
É tentador olhar para uma arqueia Asgard e pensar: “é assim que eram os primeiros organismos que deram origem aos animais”.
Mas essa conclusão seria muito além do que as evidências permitem.
As arqueias que vivem atualmente são organismos modernos que passaram por bilhões de anos de evolução.
Elas não são fósseis vivos de uma célula ancestral.
O que os cientistas fazem é comparar seus genes, estruturas e comportamentos com os de outros organismos e tentar reconstruir características que podem ter existido em ancestrais antigos.
Por isso, cada descoberta precisa ser interpretada com cuidado.
Uma proteína semelhante à encontrada em eucariotos não significa necessariamente que ela tinha exatamente a mesma função no ancestral.
Uma estrutura parecida não significa que tenha sido usada da mesma maneira.
E uma interação observada entre duas espécies modernas não demonstra automaticamente que o mesmo mecanismo ocorreu durante a origem dos eucariotos.
Por que estudar organismos tão estranhos?
Porque a história da vida não está preservada apenas em fósseis.
Grande parte dela também está escrita no DNA dos organismos que ainda existem.
As arqueias Asgard são particularmente valiosas porque ocupam uma posição importante na árvore evolutiva da vida.
Ao estudar suas estruturas, seus genes e suas relações com outros microrganismos, os pesquisadores conseguem testar hipóteses sobre uma das maiores transições evolutivas conhecidas.
A passagem de células relativamente simples para células complexas abriu caminho para organismos capazes de formar tecidos, órgãos e corpos multicelulares.
Sem essa transformação, não existiriam animais, árvores, flores, cogumelos ou seres humanos como conhecemos hoje.
O que ainda precisa ser descoberto?
Há várias perguntas em aberto.
Como as extensões das arqueias evoluíram?
Os pesquisadores ainda precisam entender exatamente suas funções e como elas se relacionam com o citoesqueleto.
Como ocorreu a associação com a bactéria que deu origem à mitocôndria?
Esse continua sendo um dos grandes mistérios da evolução celular.
Como uma célula conseguiu estabelecer uma relação permanente com outra?
A endossimbiose explica uma parte do processo, mas os mecanismos envolvidos ainda são objeto de investigação.
Quantas espécies de Asgard ainda não conhecemos?
Provavelmente muitas.
Centenas já foram identificadas a partir de DNA ambiental, mas cultivar esses organismos continua sendo extremamente difícil.
O que existe dentro dessas células que ainda não conseguimos enxergar?
Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes.
À medida que técnicas de microscopia, genômica, proteômica e cultivo avançam, estruturas que antes eram invisíveis podem começar a aparecer.
A descoberta pode mudar a maneira como contamos a história da vida
Durante muito tempo, a evolução da vida complexa parecia uma sequência quase impossível de reconstruir.
Agora, os cientistas estão começando a encontrar organismos que funcionam como peças intermediárias no sentido investigativo — não necessariamente como ancestrais diretos, mas como sistemas que permitem testar mecanismos que podem ter sido importantes no passado.
As arqueias Asgard são um desses casos.
Elas são pequenas demais para serem vistas a olho nu, vivem em ambientes pouco familiares e podem levar anos para crescer em laboratório.
Mesmo assim, dentro dessas células microscópicas podem estar algumas das pistas mais importantes sobre como a vida na Terra passou de organismos simples para a extraordinária diversidade que existe atualmente.
E talvez a parte mais surpreendente seja justamente essa:
uma das maiores revoluções da história da vida pode ter começado com organismos tão pequenos que milhões deles poderiam caber em um espaço minúsculo.
A pesquisa ainda está longe de resolver completamente o mistério.
Mas, cada vez que os cientistas conseguem cultivar uma nova arqueia Asgard e observar seu comportamento, uma pequena parte dessa história de bilhões de anos deixa de ser apenas uma hipótese genética e passa a poder ser investigada diretamente.
Perguntas frequentes
O que são as arqueias Asgard?
São um grupo de microrganismos pertencentes ao domínio das arqueias. Elas ganharam grande importância científica porque apresentam características genéticas e celulares relacionadas às células eucarióticas.
As arqueias Asgard são os primeiros seres humanos?
Não. As arqueias Asgard são microrganismos modernos. Elas não são seres humanos primitivos nem fósseis vivos. Seu estudo ajuda os cientistas a investigar características que podem ter existido em ancestrais relacionados à origem dos eucariotos.
As arqueias Asgard têm núcleo?
Não possuem um núcleo eucariótico como o das células animais ou vegetais. Sua organização celular é diferente, embora algumas apresentem estruturas relacionadas a componentes encontrados em eucariotos.
Por que elas são importantes para entender a evolução?
Porque seus genes e estruturas celulares apresentam semelhanças com características consideradas importantes nas células eucarióticas. Isso permite testar hipóteses sobre como a complexidade celular surgiu.
Elas têm relação com as mitocôndrias?
Indiretamente, sim, no contexto das hipóteses sobre a origem dos eucariotos. A mitocôndria é considerada descendente de uma antiga bactéria que estabeleceu uma relação endossimbiótica com uma célula ancestral. As arqueias Asgard são estudadas porque parecem estar próximas da linhagem relacionada aos eucariotos.
Os cientistas já descobriram como surgiu a vida complexa?
Ainda não. Existem evidências e modelos científicos importantes, mas detalhes fundamentais da origem dos eucariotos continuam sendo investigados.
O que torna essas arqueias tão difíceis de estudar?
Muitas vivem em concentrações muito baixas e crescem lentamente. Algumas dependem de outros microrganismos, tornando o cultivo em laboratório especialmente trabalhoso.
Conclusão
As arqueias Asgard mostram que a fronteira entre uma célula “simples” e uma célula complexa pode ser muito mais interessante do que parecia.
Estruturas semelhantes a tentáculos, componentes do citoesqueleto, microtúbulos e interações íntimas com outras células estão ajudando os cientistas a investigar um dos maiores capítulos da evolução.
Ainda não existe uma resposta definitiva para todos os passos que levaram ao surgimento dos eucariotos.
Mas uma coisa está cada vez mais clara: para entender como surgiram organismos complexos, os pesquisadores precisam olhar atentamente para os microrganismos que durante muito tempo permaneceram quase invisíveis para a ciência.
E alguns deles podem guardar pistas sobre acontecimentos que começaram bilhões de anos antes de os primeiros animais aparecerem.

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