Remoção de carbono: como rochas em plantações de arroz podem capturar CO₂

O que aconteceria se uma plantação de arroz pudesse ajudar a retirar dióxido de carbono da atmosfera?

A ideia parece estranha.

Mas um projeto anunciado nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, pretende justamente testar isso em uma escala gigantesca no Rio Grande do Sul.

O Google anunciou seu maior acordo de remoção de carbono até agora para apoiar um projeto desenvolvido pela Terradot em mais de 200 mil hectares de áreas de cultivo de arroz.

A iniciativa combina duas estratégias diferentes.

A primeira pretende reduzir as emissões de metano associadas ao cultivo de arroz.

A segunda busca remover CO₂ da atmosfera utilizando uma técnica conhecida como intemperismo acelerado de rochas, ou enhanced rock weathering.

Segundo as empresas, trata-se do maior projeto desse tipo anunciado até agora e da primeira iniciativa nessa escala a combinar redução de metano com remoção durável de carbono.

Mas como uma rocha pode retirar carbono do ar?

E por que justamente plantações de arroz do Rio Grande do Sul foram escolhidas para testar essa estratégia?

A ideia parece simples, mas envolve química

A técnica utilizada no projeto tenta acelerar um processo que já acontece naturalmente.

Algumas rochas, especialmente aquelas ricas em determinados minerais, participam de reações químicas quando entram em contato com água e dióxido de carbono.

Na natureza, esse processo ocorre lentamente.

A proposta do intemperismo acelerado de rochas é triturar determinados materiais e espalhá-los sobre áreas agrícolas, aumentando a superfície disponível para essas reações.

O Google explica que a chuva contém pequenas quantidades de CO₂ dissolvido e que, ao entrar em contato com rochas, ocorre um processo natural capaz de armazenar parte desse carbono por longos períodos.

A Terradot busca acelerar esse fenômeno utilizando rochas trituradas em áreas agrícolas.

Não é, portanto, uma máquina que “suga” o ar.

É uma reação química natural que os pesquisadores querem tornar mais rápida e mensurável.

O que o Google anunciou no Brasil?

O projeto anunciado nesta quarta-feira será realizado no Rio Grande do Sul e deverá abranger mais de 200 mil hectares.

Ele é conduzido pela Terradot, empresa especializada em remoção de carbono por intemperismo acelerado de rochas e na qual o Google já investe.

O acordo representa a maior compra de remoção de carbono já anunciada pelo Google.

A proposta possui duas metas diferentes.

Primeira frente: reduzir metano

O cultivo de arroz em áreas alagadas cria condições que favorecem microrganismos produtores de metano.

O projeto pretende utilizar mudanças no manejo da água para diminuir essas emissões.

Segunda frente: remover CO₂

A Terradot pretende aplicar rochas trituradas ao solo para acelerar o processo natural de intemperismo e retirar carbono da atmosfera.

As duas estratégias serão contabilizadas separadamente.

Por que o arroz produz metano?

Essa é uma das partes menos conhecidas da produção de arroz.

Quando os campos ficam inundados, a água reduz a quantidade de oxigênio disponível no solo.

Esse ambiente favorece determinados microrganismos que produzem metano durante a decomposição de matéria orgânica.

O metano então pode escapar para a atmosfera.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente aponta o cultivo de arroz como uma fonte importante de metano antropogênico e destaca que o manejo da água pode reduzir essas emissões.

É por isso que uma mudança aparentemente simples — controlar melhor quando o solo fica molhado ou seco — pode ter efeito climático.

A solução pode ser mudar a água, não abandonar o arroz

Uma das estratégias conhecidas para diminuir metano em arrozais é chamada de irrigação e secagem alternadas, ou alternate wetting and drying.

Em vez de manter o campo continuamente inundado, o agricultor alterna períodos de irrigação e drenagem.

Segundo o UNEP, essa abordagem pode reduzir significativamente as emissões de metano e também diminuir o uso de água, embora os resultados dependam das condições agrícolas e da forma como a técnica é implementada.

O projeto do Rio Grande do Sul pretende aplicar medidas desse tipo para atacar uma fonte de metano.

É a primeira metade da estratégia.

A segunda é muito diferente.

Agora entram as rochas

O intemperismo acelerado de rochas é baseado em um processo que já acontece no planeta.

Imagine uma rocha exposta durante milhares ou milhões de anos.

A chuva, o ar e a água interagem com seus minerais.

Ao longo do tempo, reações químicas transformam esses minerais e podem incorporar carbono em formas mais estáveis.

O problema é a velocidade.

Na natureza, esse processo é muito lento.

Ao triturar a rocha, aumenta-se enormemente a área de contato com água e CO₂.

A ideia é acelerar a reação.

O Google descreve o processo como uma maneira de acelerar um fenômeno natural de captura de carbono e afirma que a aplicação agrícola também pode ter efeitos sobre a saúde do solo.

Então basta jogar pedra moída no campo?

Não.

Essa é uma simplificação importante.

Para que o processo funcione como uma tecnologia de remoção de carbono, é necessário saber:

  • qual rocha está sendo utilizada;
  • quanto material é aplicado;
  • onde é aplicado;
  • como o material reage no solo;
  • quanto CO₂ realmente é removido;
  • por quanto tempo o carbono permanece armazenado;
  • quais impactos podem ocorrer no solo;
  • como medir e verificar os resultados.

Essa última questão é especialmente importante.

Não basta aplicar rocha e afirmar que determinado volume de CO₂ desapareceu.

É necessário demonstrar cientificamente quanto carbono foi efetivamente removido.

O próprio Google reconhece que medir com precisão a quantidade de CO₂ removida por esse processo ainda é um desafio.

É por isso que o Brasil virou um grande laboratório

A agricultura brasileira oferece uma característica importante para essa tecnologia:

uma enorme extensão de terras agrícolas.

Se uma técnica funciona apenas em pequenas áreas experimentais, seu impacto climático global tende a ser limitado.

Mas se puder funcionar de maneira economicamente viável em grandes extensões agrícolas, o potencial aumenta.

O projeto anunciado no Rio Grande do Sul foi desenhado justamente para testar essa possibilidade em escala.

São mais de 200 mil hectares.

Isso equivale a uma área agrícola gigantesca sendo utilizada para testar simultaneamente redução de metano e remoção de CO₂.

Quanto carbono o projeto pretende remover?

As empresas estabeleceram metas separadas.

Para a redução de metano, o projeto pretende gerar impacto equivalente a 1 milhão de toneladas métricas até 2030.

Para a remoção de carbono por intemperismo acelerado, a meta é alcançar 1 milhão de toneladas métricas até 2040.

Esses números não significam que essas quantidades já foram removidas.

São metas associadas ao projeto.

A diferença é fundamental.

O projeto ainda precisa executar as atividades, medir os resultados e passar pelos processos de contabilização e verificação correspondentes.

Por que existem duas metas diferentes?

Porque metano e CO₂ têm comportamentos diferentes na atmosfera.

O metano é um gás de efeito estufa muito potente e tem uma permanência atmosférica muito menor que o CO₂.

O dióxido de carbono, por sua vez, pode permanecer influenciando o sistema climático durante períodos muito longos.

Por isso, reduzir metano pode produzir benefícios climáticos relativamente rápidos, enquanto remover CO₂ busca enfrentar o acúmulo de carbono de longa duração.

O UNEP destaca justamente a importância de reduzir metano rapidamente, ao mesmo tempo em que medidas de longo prazo continuam necessárias para enfrentar o CO₂.

O projeto tenta trabalhar nos dois horizontes simultaneamente.

Isso significa que o arroz brasileiro vai “limpar o ar”?

Não é correto interpretar dessa maneira.

O projeto não transforma automaticamente uma plantação de arroz em uma espécie de filtro atmosférico.

A remoção depende de uma cadeia de processos químicos, agrícolas e de medição.

Também é necessário contabilizar as emissões associadas à produção, transporte e aplicação dos materiais.

Além disso, metas futuras não equivalem a resultados já comprovados.

A proposta é testar e ampliar uma tecnologia.

Os resultados reais serão determinados pelos dados obtidos durante a operação.

Por que o Google está investindo nisso?

Existe uma razão tecnológica e ambiental.

Empresas de tecnologia estão aumentando suas necessidades de eletricidade e infraestrutura, especialmente com a expansão de data centers utilizados para serviços digitais e inteligência artificial.

Isso aumenta a pressão para reduzir e compensar emissões.

O acordo com a Terradot representa uma tentativa do Google de ampliar uma tecnologia de remoção de carbono que a empresa já apoia.

Em 2024, o Google anunciou investimento e um acordo de compra de 200 mil toneladas de créditos de remoção de carbono da Terradot, com entregas previstas para a década seguinte.

Agora, o projeto brasileiro aumenta dramaticamente a escala pretendida.

O projeto é apenas sobre clima?

Não necessariamente.

O intemperismo acelerado de rochas também é estudado por possíveis efeitos sobre os solos.

Dependendo do material utilizado, a aplicação pode fornecer minerais e alterar determinadas características químicas do solo.

Mas isso não significa que toda aplicação de rocha triturada produzirá benefícios agrícolas.

Os efeitos dependem do tipo de rocha, das características do solo, do clima e da quantidade aplicada.

O próprio Google descreve a melhoria da saúde do solo como uma possibilidade associada à tecnologia, e não como um resultado automático em qualquer situação.

O que acontece com o CO₂ depois?

Essa é uma pergunta fundamental.

O objetivo do processo não é simplesmente transformar CO₂ em outra forma temporária.

A ideia é que as reações químicas associadas ao intemperismo convertam o carbono em formas mais estáveis.

O Google explica que o processo natural pode bloquear parte do carbono por milhares de anos e que o objetivo do ERW é acelerar esse fenômeno.

Em outras palavras:

CO₂ da atmosfera → reação com minerais → carbono em formas mais estáveis.

O caminho completo é mais complexo que essa representação, mas ela ajuda a entender o princípio.

E como saber se o carbono realmente foi removido?

Esse é um dos maiores desafios da tecnologia.

A remoção precisa ser medida, relatada e verificada.

Não basta saber quantas toneladas de rocha foram espalhadas.

É necessário estimar quanto carbono foi efetivamente removido pela reação.

O Google já destacou que essa medição é difícil e que ampliar operações no mundo real também é uma maneira de desenvolver métodos mais rigorosos para medir a remoção.

A Terradot pretende utilizar dados ambientais e ferramentas digitais para melhorar esse acompanhamento.

Em iniciativas anteriores, o Google também explicou que ferramentas de inteligência artificial e dados geoespaciais podem ajudar a prever e monitorar a remoção de carbono por intemperismo acelerado.

A inteligência artificial também entra nessa história

Existe uma conexão curiosa entre o projeto agrícola e a tecnologia digital.

O Google afirma que modelos de IA podem ajudar a estimar e otimizar a remoção de carbono considerando dados como:

  • características do solo;
  • clima;
  • condições ambientais;
  • localização;
  • comportamento dos minerais.

Esses modelos também podem ajudar no monitoramento do processo.

Isso significa que o projeto não consiste apenas em agricultura e geologia.

Existe uma terceira camada:

dados.

Grandes quantidades de informações podem ser usadas para identificar onde a técnica apresenta maior potencial.

O projeto poderia ser expandido?

Essa é uma das possibilidades apresentadas pelas empresas.

O projeto inicial cobre mais de 200 mil hectares.

Mas o setor de arroz brasileiro é muito maior.

Segundo informações divulgadas sobre a iniciativa, as empresas veem possibilidade de expansão para uma parcela maior dos aproximadamente 1,5 milhão de hectares de arrozais do Brasil, além de eventual replicação em países como Índia e Vietnã.

Isso, entretanto, é uma possibilidade futura.

Não significa que toda essa área já esteja incluída no acordo anunciado.

Por que o Rio Grande do Sul?

O estado possui uma grande concentração da produção brasileira de arroz e extensas áreas de cultivo.

Isso cria uma escala agrícola adequada para testar uma tecnologia voltada justamente para arrozais.

Além disso, o projeto aproveita uma característica importante do cultivo:

o manejo da água.

A produção de arroz irrigado permite testar estratégias de alternância entre períodos de inundação e drenagem.

O projeto, portanto, consegue combinar uma intervenção agrícola já conhecida com uma tecnologia emergente de remoção de carbono.

Isso pode mudar o jeito de produzir arroz?

Ainda é cedo para afirmar.

Mas o projeto cria uma possibilidade interessante.

Em vez de pensar apenas em quanto arroz uma determinada área produz, pesquisadores e empresas podem começar a avaliar simultaneamente:

  • produtividade;
  • consumo de água;
  • emissões de metano;
  • carbono removido;
  • qualidade do solo;
  • custos;
  • retorno para produtores.

Essa combinação poderia criar um novo modelo de agricultura de baixo carbono.

Mas isso depende dos resultados obtidos em campo.

E quanto custa retirar carbono com essa técnica?

Esse é um dos problemas centrais.

Tecnologias de remoção de carbono precisam competir não apenas cientificamente, mas também economicamente.

A Reuters informou que o custo atual do processo continua acima de US$ 100 por tonelada, valor considerado por muitos desenvolvedores como importante para estimular uma demanda mais ampla.

A empresa afirma que o novo projeto deve ter custo menor do que acordos anteriores, embora ainda não tenha atingido esse patamar.

Em 2024, um acordo anterior do Google com a Terradot envolveu cerca de US$ 300 por tonelada em um contrato para 90 mil toneladas de remoção, segundo a Reuters.

O objetivo agora é reduzir custos à medida que a tecnologia cresce.

Por que a verificação é tão cara?

Para vender créditos de remoção de carbono, não basta declarar que uma determinada quantidade de CO₂ foi removida.

É necessário verificar o resultado.

No caso do intemperismo acelerado, isso pode ser especialmente difícil porque o processo acontece dentro do solo e envolve reações químicas lentas.

A Reuters informou que a verificação pode acrescentar mais de US$ 100 por tonelada aos custos do processo, segundo a Terradot.

A empresa pretende usar períodos mais longos de acumulação antes da verificação para reduzir esse peso econômico.

Essa é uma das questões que determinarão se a tecnologia conseguirá realmente escalar.

E se a rocha usada causar algum problema no solo?

Essa é outra questão que precisa ser monitorada.

Nem toda rocha possui a mesma composição.

Alguns materiais podem conter elementos indesejados ou apresentar características inadequadas para determinadas culturas.

Por isso, a escolha do material, sua composição química, tamanho das partículas e quantidade aplicada são importantes.

Uma tecnologia de remoção de carbono precisa ser ambientalmente segura para ser realmente útil.

Não faria sentido retirar CO₂ enquanto cria outro problema ambiental.

Existe risco de a tecnologia ser superestimada?

Sim, e essa é uma questão importante.

A remoção de carbono é um campo relativamente novo em escala industrial.

Existem diferentes tecnologias, com níveis variados de maturidade.

O intemperismo acelerado possui uma vantagem interessante: utiliza um processo natural.

Mas isso não significa que sua aplicação em escala gigantesca esteja automaticamente comprovada.

O próprio Google afirma que ainda existem dificuldades para medir com precisão a quantidade de CO₂ removida.

Por isso, o projeto brasileiro deve ser observado também como um grande experimento de escala.

O que já está comprovado?

Alguns elementos da história são conhecidos.

O arroz irrigado pode produzir metano.

O manejo da água pode reduzir essas emissões.

O intemperismo de rochas é um processo natural que participa do ciclo do carbono.

E a aplicação de rochas trituradas em solos pode acelerar determinadas reações químicas.

O que ainda precisa ser demonstrado em escala é:

quanto carbono pode ser removido de maneira consistente, mensurável e economicamente viável em grandes áreas agrícolas.

Essa diferença é fundamental.

O Brasil pode se tornar um grande fornecedor de remoção de carbono?

É uma possibilidade que o projeto pretende explorar.

O país possui enorme área agrícola, diferentes tipos de solo, grande produção de arroz e disponibilidade de determinados materiais minerais.

Se os resultados forem positivos e economicamente viáveis, a tecnologia poderia encontrar espaço em outras regiões agrícolas.

A própria Terradot pretende utilizar o projeto brasileiro como referência para expansão internacional.

Mas novamente:

possibilidade não é resultado.

A escala futura dependerá dos dados obtidos.

O que isso tem a ver com a inteligência artificial?

Mais do que parece.

O Google está simultaneamente enfrentando uma questão criada pela expansão de sua infraestrutura de IA: o aumento da demanda por data centers e, consequentemente, de energia e emissões associadas.

A empresa busca soluções de remoção de carbono enquanto também desenvolve ferramentas de IA para medir e otimizar essas próprias tecnologias ambientais.

É uma espécie de encontro entre duas áreas:

computação e agricultura.

Dados de satélites, sensores, mapas de solo, clima e modelos computacionais podem ajudar a determinar onde a aplicação de rochas tem maior potencial.

O Google já descreveu o uso de Earth Engine e IA geoespacial nesse tipo de trabalho.

O que pode acontecer até 2030?

A primeira meta relevante do projeto está relacionada ao metano.

A expectativa é alcançar impacto equivalente a 1 milhão de toneladas métricas de redução de metano até 2030.

Isso dependerá da implementação das práticas agrícolas e da medição dos resultados.

A segunda meta é mais longa.

A remoção de carbono por intemperismo acelerado tem horizonte até 2040, com objetivo de alcançar impacto equivalente a 1 milhão de toneladas métricas de remoção.

São, portanto, duas escalas temporais diferentes.

Por que o metano merece tanta atenção?

Porque ele é um gás de efeito estufa muito potente.

O UNEP afirma que o metano é responsável por uma parcela significativa do aquecimento global e que reduzir suas emissões pode produzir efeitos climáticos relativamente rápidos porque o gás permanece na atmosfera por muito menos tempo que o CO₂.

Isso torna o arroz uma área interessante para mitigação.

O objetivo não é produzir menos arroz.

É encontrar maneiras de produzir o mesmo alimento com menor emissão.

O arroz pode virar uma solução climática?

Talvez parcialmente.

Mas seria exagerado dizer que arrozais vão resolver o problema climático.

A produção de alimentos envolve emissões de diferentes fontes.

O arroz é apenas uma parte do sistema agrícola.

O que o projeto tenta demonstrar é algo mais específico:

uma mesma área agrícola pode ser administrada de maneira que reduza uma fonte de emissão e, simultaneamente, participe de uma estratégia de remoção de carbono.

Se funcionar em escala, isso poderia ser relevante.

O detalhe que torna esse projeto diferente

Normalmente, quando se fala em remoção de carbono, as pessoas imaginam grandes máquinas industriais capturando CO₂ diretamente do ar.

O projeto brasileiro segue uma lógica diferente.

Não existe uma grande máquina no centro da operação.

A tecnologia utiliza:

solo + rocha + água + química natural + agricultura + dados.

Essa combinação é justamente o aspecto mais curioso.

Em vez de construir uma enorme fábrica para capturar carbono, a proposta é utilizar milhões de pequenas reações químicas espalhadas por áreas agrícolas.

O que pode dar errado?

Existem vários desafios.

1. Medição

Quanto CO₂ foi realmente removido?

2. Custo

A técnica precisa ficar barata o suficiente para funcionar em escala.

3. Logística

Rochas precisam ser extraídas, trituradas, transportadas e distribuídas.

Tudo isso consome energia.

4. Solo

Os impactos precisam ser monitorados.

5. Permanência

É necessário demonstrar por quanto tempo o carbono permanece armazenado.

6. Verificação

Os créditos precisam representar remoções reais e mensuráveis.

7. Escala

Uma técnica que funciona em laboratório não necessariamente funciona em centenas de milhares de hectares.

Esses desafios não anulam a tecnologia.

Mas mostram por que o projeto é, antes de tudo, uma grande etapa de demonstração.

O projeto já está removendo 1 milhão de toneladas?

Não.

Essa é uma distinção essencial.

As 1 milhão de toneladas associadas a cada meta são objetivos do projeto, não resultados já realizados.

O anúncio estabelece um caminho para produzir esses resultados nos próximos anos.

A execução e a verificação determinarão quanto será efetivamente alcançado.

Por que essa notícia importa para o Brasil?

Porque coloca uma área agrícola brasileira no centro de uma tecnologia climática emergente.

O projeto reúne:

  • agricultura;
  • mineração;
  • química;
  • clima;
  • tecnologia;
  • inteligência artificial;
  • mercado de carbono.

Se a estratégia funcionar, o país poderá ganhar experiência em uma tecnologia que outras regiões produtoras de arroz também poderiam utilizar.

As empresas já citam Índia e Vietnã como possíveis mercados futuros.

O futuro pode estar no solo

Existe uma ironia nessa história.

A discussão climática frequentemente olha para o céu:

quanto CO₂ existe na atmosfera?

Mas parte das soluções pode estar justamente no chão.

O projeto do Rio Grande do Sul tenta transformar o solo agrícola em uma espécie de ambiente ativo de processamento de carbono.

Não é uma solução mágica.

Não substitui a redução de emissões na origem.

E ainda precisa provar sua eficiência em grande escala.

Mas é uma abordagem cientificamente interessante porque tenta aproveitar processos naturais em vez de depender exclusivamente de grandes instalações industriais.

O que realmente está sendo testado no Rio Grande do Sul?

No fundo, o experimento é maior do que “jogar pedras na lavoura”.

O que está sendo testado é um novo modelo de agricultura climática.

A pergunta é:

é possível produzir arroz, reduzir metano, utilizar rochas para acelerar a remoção de CO₂ e medir tudo isso de forma confiável e economicamente viável?

O projeto de mais de 200 mil hectares foi criado para tentar responder justamente a essa pergunta.

E os próximos anos serão decisivos.


RESUMO EM 7 PONTOS

  1. O Google anunciou em 16 de setembro de 2026 seu maior acordo de remoção de carbono até hoje.
  2. O projeto será desenvolvido em mais de 200 mil hectares no Rio Grande do Sul.
  3. Uma das estratégias será reduzir o metano produzido no cultivo de arroz.
  4. A outra utilizará intemperismo acelerado de rochas para tentar remover CO₂ da atmosfera.
  5. A meta anunciada é gerar impacto equivalente a 1 milhão de toneladas de redução de metano até 2030 e 1 milhão de toneladas de remoção de carbono até 2040.
  6. A técnica ainda enfrenta desafios importantes de medição, custo e verificação.
  7. Se os resultados forem positivos, o modelo poderá ser ampliado para outras áreas do Brasil e países produtores de arroz.

FAQ

O que é remoção de carbono?

É o processo de retirar dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo em uma forma ou local que reduza sua permanência na atmosfera.

Como rochas podem retirar CO₂ do ar?

Alguns minerais presentes nas rochas participam de reações químicas com água e CO₂. O intemperismo acelerado busca aumentar a velocidade dessas reações utilizando rochas trituradas.

Por que o projeto será feito em plantações de arroz?

Porque o cultivo de arroz em áreas alagadas pode gerar metano. O projeto pretende combinar técnicas de manejo da água para reduzir esse gás com aplicação de rochas para remoção de CO₂.

Onde será realizado?

No Rio Grande do Sul, em uma área superior a 200 mil hectares.

Quanto carbono será removido?

A meta anunciada para a frente de remoção de carbono é alcançar impacto equivalente a 1 milhão de toneladas métricas até 2040. Isso é uma meta futura, não uma quantidade já removida.

O projeto já comprovou que funciona?

A tecnologia possui base em processos naturais conhecidos, mas sua aplicação em escala muito grande ainda envolve desafios de medição, verificação, custo e logística. O próprio Google destaca dificuldades para medir com precisão a remoção de CO₂.

O arroz produz metano?

Sim. Campos de arroz inundados criam condições que favorecem microrganismos produtores de metano. Estratégias de manejo da água podem reduzir essas emissões.

As rochas podem melhorar o solo?

Dependendo do material e das condições, o intemperismo acelerado pode contribuir para determinados aspectos da qualidade do solo. Porém, os efeitos dependem do tipo de rocha, do solo e da aplicação; não é um benefício automático.

O projeto pode ser expandido?

As empresas afirmam que o modelo poderá futuramente ser ampliado para outras áreas produtoras de arroz no Brasil e para países como Índia e Vietnã.

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