Atividades culturais: como elas podem melhorar o bem-estar

Durante muito tempo, falar em cuidar da saúde e do bem-estar significava pensar principalmente em alimentação, exercícios físicos, sono e consultas médicas.

Mas uma pesquisa recente sobre os hábitos dos brasileiros revela outro comportamento que merece atenção: as atividades culturais também aparecem entre as estratégias usadas pelas pessoas para cuidar da saúde emocional e melhorar a qualidade de vida.

Ouvir música, assistir a filmes e novelas, ler, dançar, participar de eventos culturais ou simplesmente sair de casa para acompanhar uma apresentação podem parecer atividades comuns. Porém, para uma parcela significativa dos brasileiros, elas estão relacionadas a algo maior: relaxar, diminuir o estresse, sentir prazer, conviver com outras pessoas e escapar temporariamente da pressão da rotina.

A 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha, entrevistou 2.432 pessoas entre 16 e 65 anos. O levantamento encontrou uma presença relevante da cultura entre as práticas associadas ao bem-estar.

O dado mais interessante talvez esteja justamente aí: a cultura pode estar ocupando um espaço que antes era atribuído quase exclusivamente ao exercício físico quando o assunto é cuidar da mente e da qualidade de vida.

O que a pesquisa descobriu sobre cultura e bem-estar

Quando os entrevistados foram questionados sobre o que fazem para melhorar a saúde emocional, a atividade física apareceu em primeiro lugar, mencionada por 66% dos participantes.

Mas as práticas culturais vieram logo depois, com 33%.

Nesse grupo entram atividades bastante diferentes entre si, como assistir televisão, ouvir música, ler livros e dançar.

O resultado é importante porque mostra que a relação entre cultura e bem-estar não está restrita a quem frequenta museus, teatros ou grandes eventos.

Uma pessoa pode encontrar essa experiência cultural dentro de casa.

Pode ser uma música ouvida no fim do expediente.

Um livro antes de dormir.

Um filme no fim de semana.

Uma novela acompanhada diariamente.

Uma dança.

Ou uma apresentação assistida presencialmente.

Em outras palavras, não existe apenas uma maneira de consumir cultura para que ela faça parte da rotina de bem-estar.

A percepção dos benefícios também chama atenção

Entre os entrevistados que associam práticas culturais ao bem-estar, 84% disseram perceber ajuda na redução do estresse e da ansiedade.

Outros 83% relataram melhora da qualidade de vida e redução de sentimentos de tristeza.

E 81% disseram perceber benefícios no relacionamento com a família e redução da sensação de solidão.

Esses números não significam que atividades culturais sejam tratamento médico para ansiedade, depressão ou outros transtornos.

Essa distinção é fundamental.

A pesquisa registra a percepção dos participantes sobre os benefícios dessas atividades, e não demonstra que assistir a um filme, ouvir música ou ir a um show substitua tratamento profissional.

O que os dados mostram é outra coisa: existe uma parcela considerável da população que percebe a cultura como parte de uma rotina capaz de contribuir para seu bem-estar.

Por que uma música pode mudar o clima de um dia?

A música talvez seja um dos exemplos mais fáceis de entender.

Uma pessoa pode passar horas enfrentando trânsito, trabalho, cobranças, mensagens e problemas familiares. Ao chegar em casa, coloca uma música conhecida.

A situação externa não mudou.

As contas continuam existindo.

O trabalho continua no dia seguinte.

Os problemas não desapareceram.

Mas a experiência subjetiva daquele momento pode mudar.

A música pode trazer lembranças, despertar emoções, criar uma sensação de pertencimento ou simplesmente oferecer alguns minutos de distração.

Isso ajuda a entender por que atividades culturais não precisam necessariamente ser grandes eventos para ocupar um papel importante na rotina.

O valor pode estar justamente na experiência.

Uma música pode acompanhar uma caminhada.

Um livro pode criar um intervalo antes de dormir.

Um filme pode proporcionar uma noite de convivência.

Uma dança pode transformar uma reunião de amigos.

Uma exposição pode estimular curiosidade.

Uma apresentação pode criar uma memória.

É por isso que o conceito de cultura como entretenimento talvez seja pequeno demais para explicar como as pessoas realmente utilizam essas experiências no cotidiano.

A cultura também pode criar momentos de pausa

Existe outro aspecto pouco discutido: a cultura pode funcionar como uma espécie de intervalo psicológico da rotina.

Isso não significa que toda atividade cultural seja relaxante.

Um filme pode provocar tensão.

Um livro pode despertar tristeza.

Uma peça pode abordar temas difíceis.

Uma música pode trazer lembranças dolorosas.

Portanto, não existe uma relação automática entre cultura e relaxamento.

O ponto é que experiências culturais podem provocar emoções diferentes e tirar temporariamente a pessoa do padrão repetitivo de pensamentos e tarefas.

Em uma rotina dominada por notificações, trabalho, compromissos e preocupações, ter uma atividade escolhida simplesmente porque proporciona prazer pode representar uma mudança significativa.

A pesquisa da Fundação Itaú encontrou justamente a busca por relaxamento e redução do estresse como a principal motivação entre aqueles que participam presencialmente de atividades culturais com objetivo de cuidar da saúde e do bem-estar.

Essa motivação foi citada por 44% dos entrevistados desse grupo.

O crescimento das atividades culturais presenciais

Um dos dados mais interessantes do levantamento aparece quando se observa a participação em eventos presenciais.

Segundo a pesquisa, a parcela dos entrevistados que afirmou participar de eventos presenciais com objetivo de cuidar da saúde e do bem-estar passou de 25% em 2024 para 32% em 2025.

É um movimento que merece atenção.

Durante anos, grande parte da experiência cultural migrou para dentro das casas.

Filmes, músicas, livros digitais, vídeos e outros conteúdos podem ser consumidos individualmente.

Mas existe algo diferente quando a experiência acontece fora de casa.

Você sai da rotina.

Encontra outras pessoas.

Ocupa outro espaço.

Compartilha uma experiência.

Pode conversar sobre aquilo depois.

E isso ajuda a explicar por que atividades culturais presenciais podem ter uma dimensão social que o consumo individual nem sempre oferece.

O fator solidão pode ser mais importante do que parece

Entre os dados da pesquisa, um dos mais interessantes é a associação feita pelos participantes entre atividades culturais, relacionamento familiar e sensação de solidão.

O levantamento aponta que 81% daqueles que percebem impactos positivos das práticas culturais relatam benefícios no relacionamento com a família e redução da sensação de solidão.

Isso não permite afirmar que a cultura seja uma solução para a solidão.

Mas chama atenção para uma característica que frequentemente fica escondida quando se fala em entretenimento: algumas experiências culturais são também experiências de convivência.

Uma pessoa pode assistir a um espetáculo com alguém.

Ir ao cinema com a família.

Participar de uma roda de samba.

Frequentar uma biblioteca.

Assistir a uma apresentação musical.

Visitar uma exposição.

Participar de uma atividade comunitária.

A atividade em si pode ser cultural, mas a experiência também envolve encontro.

E, para algumas pessoas, esse encontro pode ser tão importante quanto o conteúdo artístico.

Nem todo mundo procura cultura da mesma maneira

A pesquisa também identificou diferenças entre homens e mulheres.

Quando o assunto é atividade física como estratégia de bem-estar, 71% dos homens entrevistados disseram recorrer a esse tipo de prática, contra 61% das mulheres.

No caso das práticas culturais, o cenário se inverteu: 38% das mulheres relataram recorrer a elas, contra 28% dos homens.

Esses números não significam que homens não valorizem cultura ou que mulheres necessariamente prefiram atividades culturais.

Eles representam as respostas dadas pelos participantes daquela pesquisa e mostram uma diferença observada naquele levantamento.

Isso é importante porque pesquisas de comportamento não devem ser transformadas automaticamente em regras individuais.

Cada pessoa pode encontrar bem-estar em atividades completamente diferentes.

A cultura não precisa ser cara

Um dos obstáculos imaginados por algumas pessoas é associar cultura a programas caros.

Mas a própria variedade das práticas culturais mostra que essa relação não é necessariamente verdadeira.

Ouvir música em casa pode não exigir nenhum gasto adicional.

Ler um livro pode ser possível por meio de uma biblioteca.

Assistir a determinados eventos públicos pode ser gratuito.

Museus e centros culturais frequentemente oferecem atividades abertas.

Praças podem receber apresentações.

Cidades podem promover festivais.

Programações culturais municipais e estaduais podem oferecer opções gratuitas ou de baixo custo.

Em setembro de 2026, por exemplo, o Rio de Janeiro recebe a primeira Semana de Arte do Rio, entre 16 e 27 de setembro, com exposições, performances, ópera, dança, música, cinema, debates e atividades ligadas ao samba e à cultura popular. Grande parte da programação é aberta ao público, embora algumas atividades dependam de lotação ou inscrição.

Esse tipo de programação mostra que a experiência cultural pode ultrapassar o modelo tradicional de comprar ingresso para assistir a um espetáculo.

Por que sair de casa pode fazer diferença?

Existe uma diferença entre consumir conteúdo cultural e participar de uma experiência cultural presencial.

Quando alguém sai de casa para assistir a uma apresentação, por exemplo, existe todo um processo envolvido.

A pessoa se prepara.

Desloca-se.

Chega a um novo ambiente.

Encontra outras pessoas.

Observa o espaço.

Participa de uma experiência coletiva.

Depois volta para casa com novas impressões.

Esse conjunto de pequenas mudanças pode quebrar a repetição da rotina.

A própria pesquisa aponta que a participação presencial vem ganhando importância entre aqueles que procuram atividades culturais como forma de cuidar do bem-estar.

Isso não quer dizer que o presencial seja necessariamente melhor que o digital.

Significa apenas que as duas experiências podem oferecer benefícios diferentes.

O curioso papel da cultura dentro de casa

Ao mesmo tempo em que os eventos presenciais ganham espaço, a pesquisa mostra que o consumo cultural doméstico continua muito relevante.

Outros dados da mesma pesquisa indicam que 66% da população realiza práticas culturais dentro de casa. Ouvir música e assistir a novelas estão entre as atividades culturais mais frequentes.

Isso revela uma característica importante da cultura brasileira: ela não depende necessariamente de instituições culturais.

Ela está espalhada pela rotina.

Está na televisão.

No celular.

No rádio.

Nos livros.

Na música.

Nas conversas.

Nas festas.

Na dança.

Nas tradições familiares.

Nas manifestações populares.

Talvez justamente por isso a cultura consiga aparecer em diferentes momentos do dia.

Existe uma diferença entre distração e bem-estar

É importante fazer uma distinção.

Uma pessoa pode passar várias horas consumindo vídeos e continuar se sentindo cansada.

Pode assistir a uma série inteira e terminar o dia mais ansiosa.

Pode passar horas nas redes sociais e sentir que não descansou.

Portanto, simplesmente consumir entretenimento não significa automaticamente cuidar do bem-estar.

A diferença pode estar na forma como a atividade é vivenciada.

Uma atividade escolhida conscientemente para descansar pode produzir uma experiência diferente de uma sequência automática de conteúdos.

Uma caminhada acompanhada de música pode ser diferente de passar horas rolando a tela.

Ler algumas páginas de um livro pode ser diferente de alternar constantemente entre dezenas de notificações.

Assistir a uma apresentação com amigos pode ser diferente de consumir vídeos sozinho durante horas.

A questão, portanto, não é apenas quanto conteúdo cultural uma pessoa consome.

Também importa como, por quê e em qual contexto.

A cultura pode ajudar a criar pequenos rituais

Outro aspecto interessante é o potencial das atividades culturais para criar rituais.

Algumas pessoas têm uma música específica para começar o dia.

Outras leem antes de dormir.

Há quem assista a um filme toda sexta-feira.

Famílias podem ter o hábito de assistir juntas a determinado programa.

Amigos podem marcar encontros em shows, festivais ou eventos.

Esses pequenos rituais ajudam a organizar o tempo e criam expectativas positivas.

Em uma rotina na qual muitos compromissos são impostos — trabalho, contas, responsabilidades, tarefas domésticas — ter alguma atividade escolhida por vontade própria pode adquirir um significado especial.

É uma maneira de reservar espaço para algo que não precisa necessariamente produzir dinheiro, desempenho ou produtividade.

E isso pode ser especialmente relevante em uma sociedade que frequentemente transforma até o descanso em uma tarefa.

Cultura também é identidade

Existe ainda uma dimensão que vai além do relaxamento.

Cultura é identidade.

Uma música pode lembrar uma cidade.

Uma festa pode representar uma tradição familiar.

Uma dança pode carregar uma história.

Uma comida pode remeter à infância.

Um livro pode apresentar uma realidade completamente diferente.

Um espetáculo pode representar uma comunidade.

Isso significa que participar de atividades culturais pode também reforçar a sensação de pertencimento.

A programação da Semana de Arte do Rio, por exemplo, reúne diferentes linguagens e manifestações, incluindo música, samba, cultura popular, dança, cinema e artes visuais.

Quando diferentes formas de expressão ocupam um mesmo espaço, o público não está apenas consumindo arte.

Também está entrando em contato com diferentes histórias, perspectivas e identidades.

O que ninguém costuma explicar sobre o assunto

Talvez o ponto mais interessante seja este:

as pessoas podem não estar procurando cultura apenas porque querem entretenimento.

Elas podem estar procurando experiências.

Experiências que interrompam a rotina.

Experiências que proporcionem prazer.

Experiências que permitam estar com outras pessoas.

Experiências que despertem lembranças.

Experiências que estimulem curiosidade.

Experiências que simplesmente ofereçam alguns minutos longe das preocupações.

Essa mudança de percepção ajuda a entender por que uma pesquisa sobre hábitos culturais pode revelar informações sobre saúde emocional e qualidade de vida.

A cultura não substitui cuidados médicos ou psicológicos.

Mas pode fazer parte da maneira como uma pessoa constrói sua rotina de lazer, convivência e bem-estar.

Como colocar mais cultura na rotina sem transformar isso em obrigação

Não é necessário criar uma lista enorme de atividades.

Uma alternativa é começar pequeno.

1. Escolha uma atividade que realmente desperte interesse

Não escolha um livro porque alguém disse que você deveria ler.

Não vá a um evento apenas para cumprir uma lista.

Comece por algo que desperte curiosidade.

2. Experimente formatos diferentes

Se você sempre ouve música, experimente uma apresentação ao vivo.

Se costuma assistir a filmes, procure uma mostra.

Se gosta de livros, visite uma biblioteca ou feira literária.

Se gosta de dança, procure uma apresentação ou atividade aberta.

3. Convide alguém

Uma atividade cultural pode se transformar em uma experiência de convivência.

Chamar um amigo, familiar ou parceiro pode tornar o momento ainda mais significativo.

4. Aproveite atividades gratuitas

Pesquise a programação cultural da sua cidade.

Museus, centros culturais, bibliotecas, praças e órgãos públicos frequentemente divulgam atividades abertas.

5. Não transforme cultura em produtividade

Você não precisa terminar um livro rapidamente.

Não precisa conhecer todos os artistas.

Não precisa entender cada obra.

Não precisa publicar uma foto.

Às vezes, a melhor parte de uma atividade cultural é simplesmente vivenciá-la.

O que os dados permitem afirmar — e o que não permitem

Os dados disponíveis mostram uma associação percebida pelos participantes entre práticas culturais e diferentes dimensões do bem-estar.

Eles mostram, por exemplo, que 33% dos entrevistados apontaram práticas culturais como estratégia para melhorar a saúde emocional e que muitos participantes percebem efeitos positivos relacionados ao estresse, qualidade de vida, tristeza, relacionamentos e solidão.

Mas isso não significa que a pesquisa tenha demonstrado uma relação de causa e efeito.

Também não significa que atividades culturais substituam psicoterapia, medicamentos, acompanhamento médico ou outros cuidados especializados.

Essa diferença é importante para evitar transformar uma tendência de comportamento em uma promessa de saúde.

O dado mais seguro é outro: a cultura ocupa um espaço relevante na maneira como muitos brasileiros procuram lazer, prazer, convivência e bem-estar.

A tendência pode ficar ainda mais visível

O calendário cultural brasileiro continua oferecendo inúmeras oportunidades para observar esse comportamento.

Em setembro, por exemplo, a programação da Semana de Arte do Rio conecta patrimônio, memória, arte e ocupação de espaços públicos.

A própria Fundação Itaú identificou crescimento da participação presencial em eventos culturais entre aqueles que buscam essas experiências para cuidar do bem-estar.

O movimento aponta para uma possibilidade interessante: a cultura pode deixar de ser vista apenas como algo feito “nas horas vagas” e passar a ser reconhecida também como uma parte importante da qualidade de vida.

Não como tratamento.

Não como obrigação.

E nem como solução para todos os problemas.

Mas como uma dimensão da vida que pode oferecer experiências de prazer, expressão, criatividade e convivência.

Conclusão

A próxima vez que alguém disser que vai ouvir música, ler um livro, assistir a um filme, dançar ou sair para uma apresentação cultural, talvez seja precipitado chamar isso simplesmente de “passatempo”.

Para milhões de brasileiros, essas atividades fazem parte da maneira de lidar com a rotina e buscar momentos de bem-estar.

A pesquisa Hábitos Culturais mostra que 33% dos entrevistados citam práticas culturais entre suas estratégias para melhorar a saúde emocional, enquanto uma parcela expressiva dos que percebem esses benefícios associa a cultura à redução do estresse, melhora da qualidade de vida e fortalecimento das relações.

O mais interessante é que não existe uma fórmula única.

Para uma pessoa, pode ser um livro.

Para outra, uma música.

Para outra, uma partida de futebol.

Para outra, uma peça de teatro.

Para outra, uma roda de samba.

Para outra, simplesmente sentar diante de um filme com alguém querido.

No fim, talvez a grande descoberta seja que cuidar da qualidade de vida também pode significar reservar espaço para aquilo que faz a vida parecer mais humana.

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